quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não sei fazer poemas

Minha agonia é delirante
Quase redundante de tão abundante
Sai rima de onde não espero, não quero
Escrevo de forma a jogar palavras no papel
E tenho contigo uma Lua de Fel
Veja que a rima: me persegue!
Como se simples fosse o que sinto
Complexo é como me comporto
E tensa, há dias que não me suporto
Irritante, a rima se impõe

Louca, louca, sou louca por ti
Inspiro e transpiro nosso amor
Mas hoje, paradoxalmente, minha ira ecoa
a falta e a presença de humor

Sou perseguida por ela: a rima
Desisto...
Não sei fazer poemas
Sei chorar pingado, versos apagados
Num coração despudorado,
Preenchendo o vazio do papel branco pautado...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Do cinza ao azul

A cor é poesia
A saudade, melancolia
O silêncio, sabedoria
Nosso amor, só sintonia
Veja, a cor que me invade
Varia do cinza ao azul
Há dias de tempestade,
onde só a tristeza persiste
Há dias ensolarados,
onde a alegria me assiste
Há dias de ventos fortes,
onde aponto meu dedo em riste
Há dias de calmaria,
e o que me dói já não resiste
Te cerca de cores fortes,
vivas e brilhantes
E vive tua saudade,
certa de que é só por instantes!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A orvalhar

Andei pensando
Rodar o mundo
Comprar passagens
Fazer milhagens
Sair sem rumo

Não ler notícias
Não ver TV
Nem te escrever

Não é que eu queira
Te abandonar
É que no Cerrado
Em dias secos
Me falta ar

Mas paro e penso
É muito trabalho
Fazer as malas
Seguir viagem
Não te levar

Façamos assim:
Enlouquecemos
Pegamos a estrada
De madrugada
Sem avisar

Dormindo ao relento
Juntemos nossos corpos
Em movimento intenso
Cansados e suados
Quase a orvalhar

Por fim:
Te abraço fortemente
Só penso em olhar pra frente
E desejo sinceramente
Teu beijo pra lá de quente
Sempre a me acompanhar

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Despoetizar

Era do outro lado da rua
Depois da faixa amarela
Onde me sentia segura
E não tinha espaço pra pequenas surpresas
É deste lado da rua
De onde vejo o sol se esconder
Onde não há segurança possível
E tudo pode me surpreender
Amanheço e anoiteço
Esperando me acostumar
A não sentir mais saudades
Do que deixei depois da faixa amarela
Até que as lembranças possam amarelar
Dizem que é longo meu aprendizado
E os dias passam arrastado
Os versos saem acanhados
É como despoetizar...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Opala 93

Marcos Toscano é figura que nos empresta alegria e nos deixa convictos da necessidade de sermos autênticos. Sua brasilidade é contagiante! Posto aqui um pouco da sua prosa: descrição exata de uma natureza simples, verdadeira e por vezes cínica.
Com vocês: Opala 93!


"Ei, moça bonita,
Andei pensando em ir-me embora
A fuligem que cai com asa de chumbo
Tem obscurecido o mais claro dos meus pensamentos
E a espessa fumaça que embaça os céus diurnos
Faz troça dos meus sonhos de verão.

Veja, querida,
Que não tenho qualquer ilusão:
Sei bem do custo de vida
E do problema fundiário
Acompanho bem de perto
O regime tarifário da respiração

Mas a verdade é que mês passado
Num momento de plena compreensão
Juntei todos meus trocados e fui até a loja de usados
na esquina da Amélia com a Rua do Futuro
E enfim, comprei um belo Opala 93

Sei que você vai protestar
E me acusar de perdulário
Já ouço o argumento incontestável
Sobre o tamanho do meu salário
Eu sei, meu bem, eu sei...
Mas é só na aparência que comprei
Um mero Opala 93

Comprei foi um pedaço de vento
Uma vista de verde, um quilômetro de estrada
E quando você estiver preparada
Vai ser nesse Opala que vamos embora daqui".

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A cidade que é dele

Entre o céu um tanto cinza
E a falta de cores dos seus paredões de edifícios
Entre a ausência de natureza
E um mar de carros apressados
Entre o que me incomoda
E uma promessa de vida futura no lugar que é dele
Escolhi não escolher
Esperando o momento que meus olhos serão mais generosos
Esperando o dia em que irei me apaixonar
E esperando, decidi escapar
Tão diferente de onde vim
Tão diferente do meu conceito de cidade
Tão diferente de mim
Tudo em volta me apavora
Como se seus concretos
Me prensassem, me oprimissem
Como se a fumaça que sai dos seus carros
Me sufocasse, me suprimisse a alegria
Pobre de mim:
Intransigentemente exigente
Descabidamente leviana
Pois há que se encontrar poesia
E pintar a vida com outra paleta de cores
Percebendo que o cinza que veste suas ruas
Pode ser o azul envergonhado
Ou o verde maltratado...
Não é minha essa cidade
Não é meu esse lugar
Mas hei de encontrar poesia
E lhe pintar com uma paleta de cores
No cinza pingar minha prosa
Ver nascer o arco-íris
Ir do branco ao cor-de-rosa...

terça-feira, 26 de abril de 2011

A cidade que é minha

Lembro-me dos dias frios
Embora deles não sinta saudade
Apenas do vento forte a bater em meu rosto
Do alívio do café bem quente
Da sensação de dormência nos pés
Lembro-me dos dias mais curtos e das noites mais longas
Embora disso não tenha saudade
Apenas de esquentar o corpo ao sol
Da comida caseira da minha avó
Do conforto de dormir com pesadas cobertas
Tempo de ter tempo de sentir sensações
Tempo de ter tempo de nada fazer
Esperando a próxima estação,
que chamamos Verão
Onde as noites são mais curtas e os dias mais longos
Me enchendo assim de saudade
Levada pelo balanço do mar
e pela lembrança inebriante dos que quero bem
E quando o Verão vai embora, vou-me embora também
Pois sei que essa cidade é minha, só minha e de mais ninguém...