quarta-feira, 16 de junho de 2010

Samba de uma noite só

Ele olhou pra ela
Ela nem lhe viu
Como um mestre sala, fez mil piruetas
E lhe deu passagem quase em referência
Ela fez descaso, mas o coração tremeu
E errou o passo ensaiado por dias
na quadra da escola vazia
Ele então pensou: Vou ganhar à morena...
Ela deu de ombros
E do coitado deu pena
Mas ele insistiu e ela logo sorriu
Os dois se olharam
Algo enfim se deu
Da cadência ao fato
Do aconchego ao abraço
Do cheiro no pescoço, enfim o beijo
Mas não é que a danada da morena
Cheia de cena
Tinha um outro alguém
Este apareceu
E ela, do seu mestre sala,
assim... esqueceu
Esqueceu do beijo, do abraço, do fato
A cadência perdeu o ritmo
O aconchego deu em “chega pra lá”
E tinha cheiro de briga no ar
Ele conta que a história virou samba
Samba de uma noite só
Diz que um samba assim
Tem começo, meio e fim
Toca uma vez só e de uma só vez
Pra não dar vexame no salão
E arranjar outra dona pro seu coração...

Pingando versos

Não olho, espio
Espio a vida
Como quem dela não pede, deseja
Espio o amor
Como quem dele não pulsa, incendeia
Espio da janela
Como quem deseja a vida e incendeia o amor
Não mordo, eu provo
Provo o tempo
Como quem dele não teme, apenas enfrenta
Provo a amizade
Como quem dela nada espera, apenas aceita
Provo da chuva
Como quem dela não se deixa molhar,
apenas pingar...
E espio da janela a vida e o amor,
pois provo do tempo, da amizade, da chuva a pingar...
Não olho, espio
E pingo... pingo versos no papel branco vazio.

Mercedita

Tomamos por vezes tradições emprestadas,
visto que somos um povo de muitas misturas
é fácil entender os versos "pampeiros" de Maria Augusta, a nossa Guta:

"Era sempre a mesma melodia
Uma milonga vivida
Rendida pelo abraço nos braços do acordeón
Com um gosto assim carmim na boca de conhaque
E aquele cheiro de riso sem fim

O veludo vermelho já velho e cansado
Escutava como em confidência à meia luz esfumaçada
as glórias dos bravos
as derrotas dos desamados
E uma gente que era só do mundo, e mais ninguém
Ciganeava vida adentro, e cantava noite afora

Palmas que, resignadas, seguiam os tacos da marcação do violeiro
Palomas e viagens voavam na cabeça daqueles tantos pobres homens
Que já rodavam o salão com Mercedita, sempre bem vinda
E tudo era um sonho doce no meio daquele canto triste de mundo

Lá na mesa dos fundos como em meio a um encantamento
A Morocha mais guapa de toda a cercania
Escondia seus ares feiticeiros
Numa mantilha de franjas longas e negras
E como que deslizando por sobre o calor da saudade dos tempos idos
Desnudava seu colo a cada ventada do abanico rendado
Mirava a todos e a nenhum
E ardiam em chamas as entranhas dos estranhos

E seguia tudo assim
Um amor de passagem, entre uma milonga e um trago
Até que entrava madrugada
Carregando os forasteiros para a estrada
Pra buscar parada n’algum campo de horizonte largo
E fazer morada breve num lugar desse mundo triste sem fim"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ventos de Outono

Quando for preciso cair para levantar
Quando for preciso lutar para permanecer vivo
Quando for preciso calar para ser ouvido
Quando for preciso mudar para ser o mesmo
Quando for preciso desfolhar para voltar a florir
Eu estarei lá
Para abrir as janelas aos ventos trazidos pelo outono
Comemorando o que já conquistamos
Garantindo que teremos mais
Mostrando que somos fortes
É tempo de nos orgulharmos
De juntar forças para novos desafios
E de dar continuidade ao que a mudança nos trouxe de bom
Feliz Outono!
Feliz continuidade da mudança!
Felicidades!

Acalanto

É só topada
Qualquer “parada”
Ela é parada
Sem lenço, sem documento

Sem sorte, por esporte
Nasceu sem guarida
Sem tutor
Sem papas na língua

Não tem nenhum pudor
E tudo que é “zica”,
Coisa ruim, doença rara
Ela pega a distância

Laça “touro a unha”
Chora igual criança
Para os “normais”
Virose passa
Nela: avança!

Sem proteção, sem noção
Vai vivendo a vida
Tira de letra
Qualquer “treta”,
Faz careta

Tem pressa,
Faz promessa pra tudo que Santo
Diz que Deus mandou lembrança
E como um mantra
Seu sorriso de noite vira pranto,
Um lindo acalanto...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Versos Confessos

Desaprender
Desaparecer
Desfalecer
Desencontrar
Desconversar
Me convencer de que é preciso mudar
Para aprender
Aparecer
Renascer
E encontrar pra te falar:
Que gosto de gostar
Do modo como vc transforma palavras
Em versos confessos
Cheios de farpas, esparsas mordaças
Rimas conexas a me atormentar
E assim: desaprendo...
Não, eu me rendo!

Mulher Difícil

Vc faz graça
Quando canta versos pra me provocar
Diz que se eu não tomar jeito
Vai me deixar
Ataca de Noel, Cartola e Paulinho
Pensa que vou me render
Pelo som do cavaquinho
Mas sou mulher difícil
Dessas que a rima não sai fácil
Por isso, se vc quiser reclamar
Da minha folga, do meu deboche e da minha poesia
Tem que pesquisar os sambas dos mais bambas
Pois nem toda a canção é só folia
Nem todo o carnaval é só orgia
Dizes que me amas
Mas eu não acredito
Pensas que me enganas
E disso eu não duvido...