segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Minestra da Vó Zuca

Dos cheiros que tenho da infância
Um não me deixava dormir:
a minestra da Vó Zuca
Era dia de casa cheia
Era dia de brincadeira
Nos assaltos à goiabeira
Meus três irmãos
Eram dez
Tamanha a barulheira
Era dia de casa cheia
Era dia de brincadeira
Da minestra da Vó Zuca,
ao peixe na frigideira
Se sinto saudade não confesso
Só o faço através desses versos
E dos cheiros que tenho da infância
Muitos ainda não me deixam dormir:
a minestra da Vó Zuca,
a folha da goiabeira, o peixe na frigideira
Minha casa já não é tão cheia
Não há tempo pra brincadeira
Dos três irmãos
Dois, são pais de três lindas meninas
Donas da minha atenção, também do meu coração...
Quisera que elas pudessem
Provar da sopa minestra
Conhecer Vó Zuca
E todos os cheiros daquela casa em festa...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Senhor e Escravo

No tempo da calmaria
Dar vazão à tempestade
No tempo da pouca idade
Dar espaço para a inocência
No tempo do desamor
Dar jeito de ter paciência
O tempo pode ser, de uma só vez,
nosso senhor e escravo
Nos presta homenagem
Ou mesmo, um desagravo
Um minuto pode ser pouco
Ou por vezes, demasiado
Uma hora, uma eternidade
Ou por vezes, 60 minutos acelerados
Uma conversa com quem se ama
Uma piscada de olhos
Para um beijo apaixonado
É só não olhar nos relógios
É dia de bem me quer
É dia de bem querer
Quem inventou o tempo
Que trate dele correr...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pecado

Era dia
E o teu amor a me iluminar
Eu dormia
Sem hora pra acordar
Prazer é despertar com teu sorriso
Me oferecendo a boca
Pronta pra eu beijar

Era noite
E o teu amor a me aquecer
Eu resistia
Sem hora pra adormecer
Prazer é encostar no teu corpo
Te oferecendo um abraço
Pronta pra abrir os braços
Pra neles te acarinhar

E amanhece
E anoitece
Vem a madrugada
Nossa cama bagunça
No lençol emaranhado
Teu travesseiro atravessado
Meu cabelo despenteado
Vestidos: só de pecado!

O lado errado do rosto

Era para ser um filme comum, num dia comum... Mas uma frase, lá no meio do que ainda não me emocionava, já que o enredo era simples, sem complexidade, despertou um sentimento novo, diferente em mim. - “Porque você está chorando? - Eu não estou chorando, só estou sorrindo com o lado errado do rosto!”

Depois de ouvir esse diálogo entre os personagens perguntei a mim mesma: quantas vezes sorrimos com o lado errado do rosto? Difícil precisar...Isso de dizer "sorri com o lado errado do rosto" me fez pensar que as coisas porque passamos, sejam boas ou más, só dependem de como as enfrentamos. Nossas dores podem, e penso que devem, ser exorcizadas, mas ao invés de dizermos que sofremos muito com aquele ou este problema, porque apenas não admitimos que é o nosso lado errado do rosto que insiste em sorrir. Ou quem sabe se dissermos que os olhos, na parte errada do rosto, sorriram um sorriso choroso.

É só mesmo um ponto de vista, e que ponto de vista! O que para uns é melâncolia, para outros é saudade, o que para uns é agonia, para outros ansiedade, o que é desejo, pode ser apenas vontade. É simplesmente o lado errado de nós sorrindo para a vida.

Descobri que quero sorrir assim, sem medo, todos os dias, um sorriso choroso, sempre do lado errado do rosto. O lado que não tem simetria, o lado onde gosto de ser beijada, o lado direito da minha vida à esquerda, o lado que não é obscuro nem explícito, o lado de lá, de lá onde a distância entre a lágrima que cai e a boca que a apara, é infinitamente pequena...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pão de mel

O meu neguinho é doce
Como um pão de mel
E samba bem miudinho
Que é de tirar o chapéu

O meu neguinho sabe que lhe quero bem
Me acorda com os versos do Cartola
E às vezes do Jorge Ben

O meu neguinho é cheio de bossa
Faz graça, faz fita, me abraça, me atiça
E me beija apressado
Com acordes ritmados que invadem meu coração...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Samba de uma noite só

Ele olhou pra ela
Ela nem lhe viu
Como um mestre sala, fez mil piruetas
E lhe deu passagem quase em referência
Ela fez descaso, mas o coração tremeu
E errou o passo ensaiado por dias
na quadra da escola vazia
Ele então pensou: Vou ganhar à morena...
Ela deu de ombros
E do coitado deu pena
Mas ele insistiu e ela logo sorriu
Os dois se olharam
Algo enfim se deu
Da cadência ao fato
Do aconchego ao abraço
Do cheiro no pescoço, enfim o beijo
Mas não é que a danada da morena
Cheia de cena
Tinha um outro alguém
Este apareceu
E ela, do seu mestre sala,
assim... esqueceu
Esqueceu do beijo, do abraço, do fato
A cadência perdeu o ritmo
O aconchego deu em “chega pra lá”
E tinha cheiro de briga no ar
Ele conta que a história virou samba
Samba de uma noite só
Diz que um samba assim
Tem começo, meio e fim
Toca uma vez só e de uma só vez
Pra não dar vexame no salão
E arranjar outra dona pro seu coração...

Pingando versos

Não olho, espio
Espio a vida
Como quem dela não pede, deseja
Espio o amor
Como quem dele não pulsa, incendeia
Espio da janela
Como quem deseja a vida e incendeia o amor
Não mordo, eu provo
Provo o tempo
Como quem dele não teme, apenas enfrenta
Provo a amizade
Como quem dela nada espera, apenas aceita
Provo da chuva
Como quem dela não se deixa molhar,
apenas pingar...
E espio da janela a vida e o amor,
pois provo do tempo, da amizade, da chuva a pingar...
Não olho, espio
E pingo... pingo versos no papel branco vazio.